O problema do Brasil não é o Aécio Neves

(Marcus Ottoni – jornalista)
  A grita é geral nas redes sociais com quase a unanimidade dos internautas indignados com a decisão do Senado Federal que, por 44 votos contra 26, devolveu o mandato e os privilégios do senador tucano de Minas Gerais, Aécio Neves (meu conterrâneo de São João del Rey). Na imprensa nacional o resultado da votação no Senado também causou o direcionamento das reportagens sobre o assunto para o viés da “pseudo indignação” das editorias de política dos telejornais, dos diários impressos e nos portais de notícias mais à esquerda. Tudo politicamente correto se o problema do Brasil se resumisse no senador Aécio Neves. 
  O problema do Brasil é muito maior, politicamente falando (ou escrevendo). Não exclui nem mesmo o Judiciário e sua proteção e zelo pela Constituição, muitas vezes rasgadas na cara do cidadão como no caso do impeachment da Dilma Rousseff que foi cassada mas manteve seus direitos políticos intactos. Se fosse só o Aécio, seria bom demais. Tudo estaria resolvido até mesmo pelo voto favorável à cassação do senador com manifestação demagógica de seus pares, principalmente os da oposição, que não poupariam discursos inflamados de moralidade e ética, coisa que desconsideraram durante a era petista, o mais sórdido período da gestão publica brasileira.
  E ponto final. O Brasil estaria novamente na bonança do desenvolvimento, nos trilhos da transparência e na linha da Justiça permanente para todos, independentemente de estar ou não no exercício de cargo eletivo ou função comissionada. Mas não é bem assim. E não é nessa linha que se vai limpar o país da sujeira espalhada pela promiscua atividade política dos “nossos representantes” no parlamento federal e, também, nos estaduais e municipais. Isso sem falar na criminosa atuação de milhares de gestores públicos que transformam seus cargos em “máquina de corromper” e “ferramenta de arrecadar propina” e vivem da impunidade garantida por troca de interesses pouco republicanos com os outros poderes.
  Mas o que se vê é o direcionamento da “ira social” para pontos específicos que desviam a atenção da sociedade para o que grande parte dos internautas nas redes sociais alinhados com a estratégia da manutenção do que aí está, em cumplicidade com a mídia nacional atrelada a grupos políticos e econômicos nacional e internacional, não querem que se torne alvo do debate na sociedade: a renovação geral dos parlamentos. Assim, se mantém a ignorância eleitoral para que nada mude no cenário político brasileiro e que todos e tudo continue como está, mesmo com alguma alteração pontual no desenho feito pelos atuais políticos para preservarem seus mandatos e a continuidade de uma situação que o povo brasileiro já condenou e quer ver seu fim, urgentemente.
  Por isso e dentro desse arcabouço inescrupuloso vão se juntando esquerda com direita, comunistas com capitalistas, conservadores com liberais, esquerdopatas com militaristas, coxinhas com mortadelas e num sem fim de afinidades eleitorais que serão fissuradas na campanha do próximo ano apenas para manter os que aí estão e impedir que novas lideranças surjam no cenário nacional para por fim a era negra da política brasileira, com a renovação maciça nos parlamentos federal e estaduais, criando uma nova ordem social e política para o país.
  A discussão não é se o Senado Federal deu uma “chave de roda” no Supremo Tribunal Federal, ou se o STF extrapolou suas prerrogativas e abusou do seu poder para interferir em outro poder. Também não é a briga de comadres entre Temer e Janot. Vai mais além e passa por cima dessas querelas entre quadrilhas organizadas instaladas nos poderes da República há muito tempo, mas com visibilidade maximizada e mais atuante nos últimos 14 anos, graças a ascensão do PT ao governo federal. A discussão que deve ser levada à sociedade e pautada nas redes sociais é sobre a renovação da alcateia política que usa, abusa e atua impunemente no país. 
  O que deve estar em debate, agora e sempre, até as eleições, é a necessidade da renovação política com o fim do mandato de todos os políticos que hoje exercem cargos nos parlamentos, seja federal ou nos estados. A substituição dessa matilha de ladrões de colarinho branco e riso franco é fundamental para que o Brasil possa, efetivamente, sair da lama na qual nos enfiaram quando o metalúrgico venceu as eleições e traiu toda a sociedade enveredando pelos descaminhos da corrupção, aliando se as forças conservadoras da política brasileira e lhes dando sobrevida e impunidade, além de absorver e incorporar as práticas espúrias daqueles que o PT duramente, e acertadamente, combateu durante décadas antes de chegar ao poder.
  Renovar, alterar a foto parlamentar dos dias atuais é a discussão que deve estar nas redes sociais e na mídia. Muito mais importante do que essas questões pontuais que, na verdade, são frutos de discórdia entre quadrilheiros, desentendimentos e mágoas por ter perdido o quinhão no roubo do tesouro público. O problema do Brasil não é apenas o Aécio Neves...
  Ah! Se fosse...

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