Eleição: entre derrotas programadas e vitórias ilusionistas
(Marcus Ottoni - jornalista)
A senadora Fátima Bezerra (PT) poderia ter sido a prefeita de Natal na melhor fase da era petista no governo federal, quando o então presidente Lula da Silva surfava na onda da preferência popular e o tapete de seu governo ainda não tinha sido levantado revelando a maior podridão da história republicana do Brasil.
Tinha todas as condições necessárias para isso naquela época, em 2008. Deputada federal bem votada e com desempenho legislativo ancorado no sucesso do governo petista, era, sem dúvida, a melhor candidata do PT para assumir a prefeitura de Natal e sentar na giroflex do Palácio Felipe Camarão com respaldo eleitoral da sociedade natalense e com ajuda e atenção, diga-se de passagem muita mesmo, do governo federal e de seus pares do Partido dos Trabalhadores, não apenas em Brasília, mas em grande parte do território nacional.
Mas no meio do caminho tinha uma Micarla de Sousa e um Agnelo Alves... Aí valeu a engenharia política do pai do prefeito de Natal, na época prefeito em Parnamirim e sem partido. Como já demonstrara anteriormente toda sua astúcia política no episódio da candidatura de Wilma de Faria ao governo do estado, em 2002, rompendo com a família e tornando-se o franco atirador de Wilma e seu principal consultor político até a eleição para o governo do Rio Grande do Norte, Agnelo soube costurar, com a mesma astúcia, a derrota de Fátima, levando junto para a cova política o deputado federal Henrique Alves, filho do irmão Aluízio, e o sobrinho senador Garibaldi Filho, presidente do Congresso Nacional, filho do outro irmão, o Garibaldi pai.
Nas sombras da eleição de Natal naquele ano, por causa da sua reeleição para prefeito de Parnamirim, o mais astuto dos Alves não teve muito trabalho para pavimentar a vitória de Micarla de Sousa, filha do seu amigo de rádio Carlos Alberto, e tirar de Fátima a sua melhor oportunidade de conseguir ser eleita para administrar Natal durante o apogeu do governo petista de Lula e seus penduricalhos do PMDB.
Ele tinha plena consciência de que a vitória de Fátima em 2008, como prefeita de Natal, colocaria um ponto final na carreira política do filho Carlos Eduardo Alves, já que a tendência da onda “Lula da Silva” era perpetuar seus eleitos nas capitais e fazer das sucessões municipais após dois mandatos uma renovação interna do partido sem alianças ou apoios a candidaturas externas. Assim, Carlos Eduardo jamais voltaria a sentar na giroflex do Palácio Felipe Camarão e perderia o discurso de líder carismático da capital com respaldo para disputar o governo do estado como um político vencedor e uma jovem liderança para a renovação do cenário potiguar.
A isso, soma-se a certeza que ele também tinha de que a eleita Micarla de Sousa, apadrinhada pelo maior desafeto do lulopetismo e do próprio presidente Lula da Silva, senador José Agripino, e sem quadros partidários com competência para gerenciar um município tão complexo como Natal, colocaria a gestão da “borboleta do PV” em cheque estrangulando sua administração e causando problemas de toda ordem para a cidade cujas soluções não seriam possíveis porque Micarla se tornaria uma “persona non grata” tanto para o governo federal como para o governo do estado e, também para dois influentes líderes políticos da oligarquia Alves no cenário nacional, Henrique Alves e Garibaldi Filho.
Com essa visão de futuro ficou fácil montar a engenharia eleitoral que derrubaria Fátima e seus aliados (Lula, Dilma, Henrique Alves, Garibaldi Filho, Wilma de Faria), pinçando de um mandato vitorioso de deputada estadual uma jovem carismática para o cargo de prefeita de Natal e deixando-a entregue a sua própria sorte durante seu governo na prefeitura da capital, facilitando assim o retorno do filho com um discurso moralizador e customizado como “salvador da cidade”, o que foi tornado realidade quatro anos depois (2012) da derrota de Fátima Bezerra na disputa pela prefeitura de Natal.
Este ano, está em jogo a giroflex do Palácio Potengi. A senadora Fátima Bezerra vai entrar na disputa contra o filho de Agnelo, atual prefeito de Natal, e outros menos expressivos candidatos ainda em gestação no útero dos partidos. Será uma campanha interessante do ponto de vista da demagogia e de muito pouco tempo para desconstruir reputações.
Um detalhe que me chama a atenção é a notícia de que o ex-vice-prefeito de Agnelo Alves e seu sucessor por escolha do próprio Agnelo que o fez prefeito de Parnamirim, Maurício Marques, será o coordenador político da campanha ao governo do estado da senadora Fátima Bezerra (PT) contra o filho do seu mentor e líder político enquanto Agnelo viveu. Já se fala até na possibilidade de Mauricio disputar uma vaga na Assembleia Legislativa para “arrastar” os votos do município para a dobradinha Fátima/Maurício, impondo ao prefeito de Natal uma derrota expressiva no município que o pai governou por oito anos.
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